22 de ago de 2011

Esta Dissertação focou seu estudo na investigação das relações de poder que constituíram o CDD, investigando as práticas de implementação do PRORENDA Urbano no Loteamento Dunas no período de 1996 a 2001. Penso  ser pertinente, ainda que não tenha relação direta com esta investigação, trazer alguns componentes importantes do que acontecia no período de 1996 a 2001 no mundo, em especial os movimentos que deram origem ao Fórum Social Mundial. Cabe lembrar que o Loteamento Dunas, ao final do PRORENDA Urbano em 2001, realizou um evento preparatório ao FSM 2001, o primeiro de vários Fóruns Sociais da Periferia que acompanha sua trajetória até hoje, sendo um dos componentes que asseguram os elementos necessários ao Dunas para superar sua posição periférica e subordinada e passar para uma situação de empoderamento nas relações de poder globais.
Em 1996, concomitantemente à implementação do PRORENDA Urbano no Loteamento Dunas, os zapatistas[1] convocaram o primeiro Encontro pela Humanidade e Contra o Neoliberalismo, reunindo mais de 6000 pessoas de diversos movimentos sociais ao redor do planeta. O Encontro foi repetido novamente em 1997 na Espanha, e em 1998, em Genebra, foi lançada uma coordenação mundial de resistência contra o mercado globalizado. O objetivo era servir como um instrumento de comunicação e coordenação das lutas contra o mercado global para a construção de alternativas locais, o que se chamou Ação Global dos Povos/AGP, e ficou conhecido como dias de Ação Global.
A AGP foi uma das primeiras organizações em rede a se declarar oponente direta à Organização Mundial de Comércio. Já na primeira reunião da AGP foram elaborados os três principais documentos que definiram os cinco princípios básicos, que foram modificados na conferência de Bangalore na Índia em agosto de 1999 e alterados na conferência de Cochabamba em 2001. Como princípio foi definido que qualquer pessoa ou organização pode entrar na rede formada pela AGP e contar com seu apoio para a realização de atividades, desde que em conformidade com seus princípios[2], além de expandir o conceito de anti-liberalismo da AGP para anti-capitalismo.
Foi durante a conferência da AGP, realizada em agosto de 1999 na Índia, que além das deliberações daquele encontro chamaram para o dia 30 de novembro (N30)[3] em Seattle, data e local escolhidos para coincidir com o terceiro encontro da Organização Mundial de Comércio, uma manifestação motivada pelo sucesso dos Dias de Ação Global anteriores. Mais de 700 organizações e 75 mil pessoas tomaram parte dos protestos em Seattle, impedindo a reunião da OMC que seria adiada para o dia seguinte.
Os acontecimentos de Seattle tiveram maior repercussão que os Dias de Ação Global precedentes. Foi no pós-Seattle que o movimento ganhou notoriedade. Muito mais que o sucesso midiático do movimento, muitos intelectuais do mundo inteiro foram obrigados a voltar suas análises ao movimento anti-globalização. Vários Dias de Ação Global ocorreram com relativo sucesso até os acontecimentos do J20 (sigla dos protestos ocorridos em Gênova/Itália), com a morte de um estudante italiano. Neste momento o movimento começou a se esvaziar, tanto em função deste fato, como também por já ser o desdobramento do primeiro Fórum Social Mundial[4] realizado em 2001, em Porto Alegre, fórum que passa a assumir globalmente os movimentos mundiais alternativos ao capitalismo.
Embora muitas ONGs e movimentos sindicais que integravam o FSM estivessem presentes nos Dias de Ação Global, o FSM não é um desdobramento direto dos dias de Ação Global, mas sim do Fórum Mundial das Alternativas[5], realizado pela primeira vez em 1997, com a proposta inicial de ser um fórum para reunir movimentos sociais e intelectuais que trabalhassem no sentido da construção de alternativas ao capitalismo. Em 1999 o Fórum Mundial das Alternativas realizou um encontro e uma coletiva de imprensa feita para coincidir com o Fórum Econômico Mundial, que se realizava desde 1971. Esse encontro ocorrido em 1999 ficou conhecido como Outro Davos, e contou com o apoio de movimentos sociais representativos de diversas partes do mundo, e é considerado precursor do FSM.
     O FSM foi um desdobramento do Outro Davos, sua primeira edição aconteceu de 25 a 30 de janeiro de 2001 na cidade de Porto Alegre (RS), escolhida por ser uma cidade do “Terceiro Mundo” e por ser identificada com o Partido dos Trabalhadores e as suas experiências de democracia participativa implantadas em diversas gestões consecutivas nessa cidade, apesar do caráter não-partidário frisado pelos organizadores. O dia 30 de janeiro, escolhido para finalizar o FSM, coincidiu com o Fórum Econômico Mundial de Davos.
    O sucesso da primeira edição garantiu sua configuração num processo mundial e permanente em busca de políticas alternativas às políticas neoliberais. Para garantir essa permanência foi elaborada uma Carta de Princípios[6], considerada o único documento oficial do FSM e diretriz básica para realização de qualquer atividade relacionada ao mesmo. Tem como pressuposto organizacional a mesma característica da organização em rede (anteriormente definida pela AGP), que permite a livre adesão e o abandono a qualquer momento.
     O Loteamento Dunas sempre esteve presente nos movimentos mundiais de construção de alternativas para um mundo melhor, primeiro com o PRORENDA Urbano, que como vimos procurou superar planejamentos de "de cima para baixo", colocando como princípio articulador aos governantes o papel de facilitadores e de apoiadores, e aos governados o papel de assumirem cada vez mais as responsabilidades e a iniciativa dos seus processos de desenvolvimento local, e segundo com os desdobramentos pós PRORENDA Urbano, em especial com sua participação ativa no processo mundial do FSM. Cabe trazer aqui outra vez uma síntese dessa militância do Loteamento Dunas junto ao FSM:
  • ·              Dunas Social e Mundial (Loteamento Dunas – Pelotas em 2001);
  • ·             Um Outro Mundo é Aqui (Loteamento Dunas – Pelotas em 2006);
  • ·        Fórum Social das Comunidades de Rio Grande (Bairro Castelo Branco - Rio Grande em 2007);
  • ·           Fórum Social da Periferia (Loteamento Dunas – Pelotas e região centro, centro sul e sul do Rio Grande do Sul em 2008);
  • ·      Fórum Social On Line da Periferia (em 2009, diretamente de Belém do Pará para periferias do mundo, via conferências on line/web);
  • ·  Fórum Social Expandido da Periferia (em 2010 e 2011, Organizado pela UNIPERIFERIA), com diversas videoconferências e encontros presenciais daqui de Pelotas para o mundo, tratando da Rede de Comunidades Populares/REDE EMCOMUM, constituída no Fórum Social Expandido da Periferia em 2010 na perspectiva de conectar comunidades populares do mundo inteiro para troca de experiências e soluções de problemas comuns.


 Por fim, penso ser pertinente também trazer a esta Dissertação alguns documentários importantes, mesmo que não sejam discutidos diretamente a esta Dissertação, mas trazem conceitos que retratam esses movimentos mundiais que aconteciam globalmente entre os anos de 1996 a 2001, que de uma forma ou de outra constituíram o FSM e temporalmente se entrelaçaram com a história do Loteamento Dunas, conforme segue:



Vídeo Institucional – Prorenda Urbano RS
   Ano de Lançamento: 2001.
   Gênero: Vídeo Institucional.
   Duração: 14 min.
   Filmado e dirigido por: METROPLAN – GTZ.
   Produzido por: Lato Comunicação - Cooperativa de Vídeo.
     Sinopse: É um vídeo institucional encomendado pela Metroplan – GTZ para apresentar o Prorenda Urbano no Rio Grande do Sul e as experiências desenvolvidas até 2000, um ano antes do final do Prorenda Urbano RS.

A Revolução Não Será Televisionada
   Ano de Lançamento: 2003.
   Gênero: Documentário.
   Duração: 75 min.
   Filmado e dirigido por: Kim Bartley e Donnacha O’Briain.
   Produzido por: David Power - Irlanda, 2003.
   Na Internet:
Sinopse: A revolução não será televisionada, filmado e dirigido pelos irlandeses Kim Bartley e Donnacha O’Briain, apresenta os acontecimentos do golpe contra o governo do presidente Hugo Chávez, em abril de 2002, na Venezuela. Os dois cineastas estavam na Venezuela realizando, desde setembro de 2001, um documentário sobre o presidente Hugo Chávez e o governo bolivariano, quando surpreendidos pelos momentos de preparação e desencadeamento do golpe, puderam registrar, inclusive no interior do Palácio Miraflores, seus instantes decisivos, quando o golpe foi respondido e esmagado pela espetacular reação do povo[7].

     Memórias del saqueo Fernando Pino Solanos 2003
   Ano de Lançamento: – 2003.
   Gênero: Documentário.
   Duração: 113 min.
   Filmado e dirigido por: Fernando Pino Sollanas.
   Produzido por: CineSur S/A – ADR Productions – Thelma Film AG.
   Sinopse: Um registro da histórica revolta dos argentinos em 2001. O filme faz a genealogia da pior crise da história argentina e aponta os principais responsáveis por essa situação dramática (Viés corrupto e privatista do Neoliberalismo). Em dezembro de 2001, os argentinos saíram às ruas para protestar contra o governo de Fernando de la Rua, já que a maior parte da população se encontrava em situação de penúria. Nas manifestações, que foram reprimidas pelas forças policiais, 34 pessoas morreram e o presidente De la Rua acabou renunciando. As altas dívidas, o ultra liberalismo, a corrupção e as privatizações foram resultado de uma política de “terra arrasada” de vários presidentes, com a ajuda de empresas multinacionais e a cumplicidade de organizações internacionais, como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional (FMI)[8].
Surplus
   Ano de Lançamento: 2003.
   Gênero: Documentário.
   Duração: 51 min.
   Filmado e dirigido por: Erik Gandini .
   Produzido por: Patrik Axem / Stavro.
   Sinopse: A confiança dos consumidores está em baixa desde o 11 de Setembro. Uma guerra bem sucedida contra o Iraque parecia ser a única forma de reconquistar essa confiança (e a nossa felicidade). Estará no consumo a nossa salvação? Temos uma escolha? Uma odisséia visual intensa filmada ao longo de três anos em oito países, desde os confrontos explosivos das manifestações em Gênova, 2001, às bonecas para uso sexual de 7000 dólares, Surplus explora a natureza destrutiva da cultura consumista. Sobre um pano de fundo onde coabitam os líderes mundiais mais cínicos e lideres do pessoal das grandes empresas e fanáticos da Microsoft, o filme foca-se no controverso guru da anti-globalização John Zerzan, cujo apelo à provocação de danos sobre a propriedade inspirou muita gente à intervenção direta nas ruas. Uma montagem impressionante numa série de imagens de cortar a respiração transforma a noção estatística, segundo a qual 20% da população mundial absorve 80% dos recursos globais, numa intensa experiência emocional[9].


[1] Movimento de insurgência ao governo mexicano e ícone dos movimentos anti-capitalismo global.
[2]    Surge o princípio da livre adesão: entra-se quando quer, e pode-se abandoná-la a qualquer momento. Tal princípio também será adotado pelo FSM.
[3]    A escolha da sigla composta pela letra inicial do mês e o dia em que ocorreria aquela Ação Global. A sigla tem o objetivo de refletir a diversidade e o alcance mundial dos eventos, não se referindo a nenhum grupo ou localidade geográfica específica.
[4]  Htpp:/forumsocialmundial.org.br
[5]  htpp:/forumdealternativas.org
[9] Sinopse em http://cinema.sapo.pt/filme/surplus/detalhes#sinopse.